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Olá a tod@s,

 

Começo o artigo de hoje com uma citação do filósofo e pedagogo John Dewey. Sabemos que os erros são oportunidades valiosas de aprendizagem, desde que reflitamos sobre eles e procuremos ajustar as nossas novas escolhas. E como errar é humano e frequente, a cada ano, mês, dia ou hora que passa, estamos mais ricos, porque, felizmente, conseguimos aprender também com os erros dos outros.

Assim, antes de avançarmos para a retrospetiva de julho, a oitava desta série, é sempre útil revisitar ou consultar — para quem ainda não teve a oportunidade de o fazer — alguns “erros” do passado, cometidos por nós e por milhares de outras pessoas, e resumidos no documento EN>PT (EU) Erros Comuns e nos 7 artigos anteriores (aqui: 1.º, o 2.º, o 3.º, o 4.º, o 5.º , o 6.º, o 7.º).

 

Na retrospetiva de julho, vamos refletir novamente sobre as traduções literais/não fluentes e a tradução dos símbolos @ e &.

 

A) Traduções literais/não fluentes

Nos três exemplos abaixo, procuro resumir o motivo pelo qual as opções de tradução não foram consideradas fluentes. A análise ou explicação de cada caso pode ser útil para inúmeras situações semelhantes no futuro.

 

Exemplo 1:

EN – As the channel creator, you have full control over the content you’d like to deliver on YouTube.

PT – Como criador do canal, tem total controlo sobre o conteúdo que gostaria de entregar no YouTube. ✖

PT – Como criador do canal, tem controlo total sobre os conteúdos que pretende transmitir no YouTube. ✔

 

O verbo “deliver” (em inglês) é, sem dúvida, um verbo difícil de traduzir, podendo ter vários sinónimos em português (entre outros, entregar, distribuir, transmitir, apresentar, proferir, comunicar, gerar, dar à luz, fornecer, prestar, concretizar, proporcionar, oferecer ou transportar). Assim, sempre que nos depararmos com este verbo, será mais fácil pensar na ideia que o verbo pretende transmitir. Neste caso específico, o verbo relaciona-se com a palavra “conteúdos” e, se pensarmos em português, concluímos que os conteúdos podem ser “transmitidos”, “publicados”, “apresentados” e “partilhados” no Youtube, mas não “entregues”.

 

Exemplo 2:

EN – Help my kid at school

         Improve my kid's attitude towards math

 

PT – Ajudar a minha criança na escola,

          Melhorar a atitude da minha criança em relação à matemática ✖

 

PT –   Ajudar o meu educando na escola,

          Melhorar a atitude do meu educando em relação à matemática ✔

        

Neste caso, o sinónimo mais direto de “kid” em português é “criança” e não existe qualquer erro sintático. Existe, antes, um erro pragmático, já que os portugueses dizem “Pretendo ajudar o meu filho/filha” e não “pretendo ajudar a minha criança”. Contudo, para utilizarmos uma linguagem mais neutra, do ponto de vista do género, e perfeitamente adequada ao grau de formalidade de uma aplicação de ensino, seria preferível utilizar, por exemplo, o termo “educando”.

 

Exemplo 3:

EN – Enjoying the app?

PT – A gostar da aplicação? ✖

PT – Está a gostar da aplicação? ✔

 

Neste exemplo, falta informação linguística para que a frase seja gramatical e fluente. Os dois termos fundamentais de uma frase são o sujeito e o predicado (tudo aquilo que se diz ou declara sobre o sujeito) e esta frase não contém sujeito. Embora, em português, haja várias situações em que se pode omitir e subentender o sujeito (“Vi os meninos. Estavam cansados.”) ou em que o sujeito é nulo (“Está a chover”), neste caso, o verbo gostar requer a presença de um sujeito expresso.

Como referi noutros artigos, cada língua tem os seus mecanismos e convenções singulares, por isso, determinadas construções gramaticais que funcionam e são aceites em inglês não são necessariamente funcionais em português.

 

 

B) A tradução dos símbolos @ (at) e & (and)

Apesar de estes símbolos já serem utilizados há muito tempo em contextos comerciais ou até científicos, o uso de “@” e “&” em vez das palavras “at” e “and” (na língua inglesa), tem-se vulgarizado cada vez mais com o advento da Internet, do correio eletrónico e das redes sociais, essencialmente por questões de economia de espaço e de tempo. Contudo, se em inglês se interpreta “@” como uma abreviatura de “at” (do latim “ad”), em português este símbolo é mais associado à antiga unidade de medida de peso “arroba”, motivo pelo qual o símbolo tem esse nome em Portugal, e motivo, também, pelo qual é habitual escrever-se “às 17h30” e não “@ 17h30”.

Da mesma forma, o “&” ou, como lhe chamamos, o “e comercial” tem sido utilizado em Portugal quase exclusivamente para designações comerciais.

A questão que surge em tradução e revisão de português europeu é se devemos empregar estes símbolos a meio de uma frase para substituir as palavras “em”, “a” ou às” ou a palavra “e”, como vai sendo habitual em inglês, em alguns contextos. Não excluindo a hipótese de a evolução da língua nos levar para esse caminho e de esta ser a forma mais fluente e expectável para as gerações futuras, não creio que seja esse o caso neste momento, pelo que devemos utilizar as palavras em vez dos símbolos em exemplos como estes:

 

Exemplo 1:

EN – 16K@60Hz High Definition Display Port 2.0 Cable

PT – Cabo Display Port 2.0 de Alta Definição 16K@60Hz ✖

PT – Cabo Display Port 2.0 de alta definição (com suporte para resoluções de) 16K a 60 Hz ✔

 

Exemplo 2:

EN – Animals & Plants

PT – Animais & Plantas ✖

PT – Animais e plantas ✔

 

Para terminar, e regressando à questão da aprendizagem com os erros aliada à evolução da língua, aquilo que hoje é encarado como “erro”, amanhã pode não ser. São as convenções, as expectativas dos leitores/falantes (e respetivos contextos), bem como um conjunto de instituições que determinam aquilo que, num dado momento e contexto histórico é fluente, natural e expectável. O tradutor é, acima de tudo, alguém que domina o uso da língua nos seus incontáveis contextos (e momentos históricos). Por isso, mesmo que todas as palavras estejam escritas corretamente e na ordem certa, uma determinada opção de tradução poderá não ser adequada para uma determinada situação de comunicação.

 

Como sempre, não hesitem em partilhar as vossas dúvidas e sugestões.

 

Continuação de boas traduções.

 

Sara Nogueira

Especialista linguística de português europeu na Gengo

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